ESPECIAL OSCAR! A HORA MAIS ESCURA (ZERO DARK THIRTY)

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Durante muitos anos as profecias cinematográficas nos diziam que, chegando aos anos 2000, tudo mudaria. A espera pelos carros voadores, andróides, teletransportes e clonagens era grande. 2001, uma odisseia no espaço (saudoso Kubrick), nos garantia isso. Ao contrário das previsões, o novo milênio trouxe desespero e pânico. O 11 de Setembro, que hoje parece tão distante, foi uma das maiores brutalidades vivenciadas na virada do século. Entre tantos culpados e cúmplices, um homem deixou a sangue sua marca na história e na memória das pessoas, mudando os parâmetros de guerra anteriormente conhecidos. Como reação em cadeia aos atentados e as mortes, os EUA entraram em uma paranóia sem fim, correndo atrás da figura que era não só o responsável, mas a representação de todo esse sofrimento. A caçada por Bin Laden é o enredo do novo filme de Kathryn Bigelow.

A Hora Mais Escura traz as guerras de gabinetes para as telas do cinema. A diretora, que antes havia investido nos massacres presenciais de Guerra ao Terror, traz o conceito de que as armas, agora, se encontram no computador, na astúcia e no rastreamento. A trama narra a história de uma “assassina” da CIA que faz parte do mais elevado núcleo de inteligência da organização. A denominação “assassina” não vem de homicídios ou coisa do tipo, mas de valentia e de competência. Maya, uma agente que vive para o trabalho, é transferida para o Paquistão e começa a trabalhar em pistas, até então completamente vazias de esperança, para encontrar Osama Bin Laden. Um possível informante seria o ponto de partida na busca pelo terrorista, mas como fazer isso quando não é possível ter certeza nem do nome real desse informante?

Sendo verdade ou não a forma como Bigelow mostra os acontecimentos, é possível perceber a imersão da personagem principal na caçada. O quebra-cabeça formado por fotos, vídeos, depoimentos e pistas dos integrantes da Al Qaeda são mais pontas soltas para serem cruzadas, do que de fato auxílio para a resolução do caso. As cenas de tortura (que são bem poucas, mas que causou um bafafá nos EUA), mostram que ela precisa se reinventar não só dentro do “escritório”, mas fora, assumindo as rédeas e fazendo um trabalho que não parece condizer com sua realidade.

Além de toda a dificuldade de ser mulher em uma equipe liderada por homens , sem possuir o apoio dos seus superiores, Maya ainda luta com a perda de colegas que, ao se envolverem em pistas potenciais, viram vítimas de atentados. Toda a segurança é pouca e a confiança no próximo quase inexiste. A descrença na operação é visível, tanto nos envolvidos estrategicamente, quanto nos soldados. Durante todo o filme, Maya precisa fazer com que todos a sua volta acreditem na mesma verdade que ela, o que não é fácil e que custa tempo. Tempo precioso que eles não possuem.

A confiança de Maya motiva não só o restante da equipe, mas quem está assistindo o filme. Jessica Chastain consegue passar para a personagem toda a coragem e a força necessária para que ultrapasse uma simples atuação.  Ao término da caçada, e também do filme, é possível dividir com ela sensação de trabalho cumprido, mas também de vazio e de cansaço. Como se depois de 12 anos de trabalho árduo e doloroso, naquele momento, sentada naquele avião, fosse permitido chorar e ser simplesmente humana. Chorar pelas perdas dos desconhecidos e dos conhecidos, mas também pela tardia, porém gratificante, justiça.

Steph.

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